sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

OBITUÁRIO IDEAL – Cena 3

IMG_1386-copy_foto_paula_kossatz_press-520x346  ENTRA “POUR QUE L´AMOUR ME QUITTE” DE CAMILLE. A MÚSICA VAI BAIXANDO ATÉ IR PARA A TV. ENTRA NOTÍCIA.

Voz do locutor: Locutor de TV: Foram encontrados nesta Quarta-feira os ossos do pé direito da namorada do jogador de basquete americano Parker James. Os restos do membro foram achados atrás de uma escola primária no subúrbio de Columbine. Muito abalado, o jogador disse que não vai se pronunciar sobre o caso. Segundo acusações, Parker teria sido o mandante do crime e o corpo da mulher teria desaparecido porque seus restos mortais foram comidos por um cachorro.

HOMEM ENTRANDO.

Homem: Oi meu amor.

Mulher: Onde é que você tava?

Homem: Como, onde eu tava, no colégio.

Mulher: Dando aula?

Homem: Não. Velando os corpos dos alunos que morreram num massacre.

Mulher: Sério?

Homem: Claro que não! Você acha que a gente mora nos Estados Unidos?

Mulher: Estados Unidos?

Homem: Ah é, já teve isso aqui também.

Mulher: Por que é que você chegou tão tarde?

Homem: Fecharam o túnel de novo.

Mulher: Ocupação na rocinha?

Homem: Criança atropelada.

Mulher: Ela morreu?

Homem: Não.

Mulher: Droga.

Homem: Que foi?

Mulher: A gente não vai conseguir chegar a tempo no cemitério.

Homem: Não é minha culpa.

Mulher: Você chegou muito atrasado.

Homem: Eu não posso pedir dispensa do trabalho pra ir ao cemitério.

Mulher: Você fez isso mês passado.

Homem: Foi o enterro da minha vó!

Mulher: Ninguém precisa saber que você não conhece o morto.

Homem: Desculpa, meu amor, mas acho melhor a gente deixar pro fim de semana.

Mulher: Fim de semana é muito longe! Eu fiquei o dia inteiro sonhando com um velóriozinho no Caju.

Homem: Você não foi trabalhar?

Mulher: Eu não ia hoje, lembra. Eu tinha consulta com aquele médico.

Homem: Ah. (pausa) E como é que foi?

Mulher: Eu não fui.

Homem: Por quê?

Mulher: Não tive vontade.

Homem: Você sabe como essa consulta era importante.

Mulher: Eu sei... Mas eu não tive vontade. Eu não... tive vontade.

Homem: Você quer que eu vá com você?

Mulher: Não precisa.

Homem: Se você quiser eu posso ir.

Mulher: Não precisa.

Homem: Esse médico é muito importante você pode tar com/

Mulher: Eu já disse que não precisa!

SILÊNCIO. ENTRA UMA RISADA DE CLAQUE NA TELEVISÃO.

Homem: Você ainda tem medicamento?

Mulher: O quê?

Homem: Eu perguntei se você ainda tem medicamento.

Mulher: Tenho. Ainda tenho.

Homem: Quando acabar me fala. Eu consigo mais pra você.

Mulher: Pode deixar.

Homem: Mas você não pode ficar tomando isso sem saber se/

Mulher: Eu vou preparar o seu jantar.

ELE VAI SAIR E PARA.

Homem: Tenta remarcar a consulta.

SILÊNCIO

Homem: É muito importante. Não só pelo óbvio. Mas pra saber se a gente.

SILÊNCIO

Homem: Você sabe que o meu maior sonho é ter um filho com voc/

Mulher: Eu vou tentar.

Homem: Que bom que você vai tentar.

SILÊNCIO. ELE NEM TENTA MAIS SE APROXIMAR. HOMEM VAI SAINDO.

Mulher: Como é que foi hoje?

Homem: Como é que foi o quê?

Mulher: Na escola. Como é que foi lá na escola hoje?

Homem: Na escola?

Mulher: Você não tava dando aula?

Homem: Tava... É... A minha aula foi boa. Hoje foi resultado de prova. A média foi surpreendente. Eu fiquei muito feliz.

Mulher: Ficou?

Homem: A minha turma teve a maior média da escola. E equação de segundo grau não é pudim.

MULHER LONGE. DEMORA UM TEMPO PRA RESPONDER.

Mulher: Que bom.

HOMEM TENTA SE APROXIMA DA MULHER, ELA SE DESVENCILHA. FICA UM CLIMA TENSO E ELA MANDA:

Mulher: Eu acabei não descongelando a carne.

Homem: Não tem problema.

Mulher: Eu fiquei tão, sei lá, passei a tarde tão que e eu acabei não.

Homem: Eu já disse que não tem problema.

Mulher: Eu posso fazer uma massa se você quiser.

Homem: Eu acho ótimo.

Mulher: Só que não tem macarrão integral.

Homem: Não tem?

Mulher: Eu me esqueci totalmente.

Homem: Eu também tinha ficado de comprar.

Mulher: E não dá mais pra comer o de farinha branca.

Homem: Não dá.

Mulher: É um veneno!

Homem: A cola!

Mulher: Pois é, menino, a cola.

Homem: Sabia que eu passei na biblioteca lá da escola outro dia e eles tavam recuperando uns livros antigos...

Mulher: É mesmo?

Homem: Com cola de farinha branca?

Mulher: Mentira?

Homem: Não pode pôr espiral porque descaracteriza o clássico do livro.

Mulher: Claro, o clássico.

Homem: Então eles tavam colando à moda antiga.

Mulher: Com cola de farinha branca.

Homem: Duas xícaras de água filtrada, duas colheres de sopa de farinha de trigo e uma colher de sopa de vinagre.

Mulher: Que absurdo!

Homem: Você ferve a água, mistura a farinha e depois leva tudo de volta ao fogo brando e fica mexendo por dez minutos até ficar um mingau.

Mulher: Eu não acredito.

Homem: Depois você desliga o fogo, acrescenta a colher de vinagre e tá pronta a cola!

Mulher: Nossa!

Homem: Agora imagina: se farinha branca e água fazem cola o que é que o macarrão comum não faz com o nosso corpo?

Mulher: Eu não gosto nem de imaginar.

Homem: É um horror!

Mulher: Fortíssimo!

Homem: Descabido.

Mulher: Uma violência.

Homem: Tão brutal quanto a gordura trans!

TEMPO.

Mulher: A gente pode ligar e pedir um sanduíche então. (tempo) No pão integral, claro.

Homem: Isso, no pão integral.

TEMPO

Homem: Eu prometo pra você que a gente vai a um enterro.

Mulher: Ai, promete?

Homem: Vai te deixar feliz?

Mulher: Vai.

Homem: Então eu te levo a todos os enterros do mundo.

Mulher: Essa foi a coisa mais bonita que você disse pra mim. (PAUSA) É que é diferente, sabe? O que eu tenho sentido durante o enterro. Tem sido uma experiência. Você sabe. É uma experiência.

Homem: Eu sei.

Mulher: No último velório. Do menino com a facada no coração, a injeção de ar na veia e os doze tiros na cabeça.

Homem: Treze.

Mulher: Isso, treze. Lembra a hora que a mãe chegou?

Homem: A gente já tava na capela. Escondido ali no canto.

Mulher: Quando ela chegou e foi até o caixão. Quando ela viu o filho morto pela primeira vez.

Homem: Eu sei.

Mulher: Foi muito forte. Muito forte. Era uma descarga de energia tão grande em forma de choro. Era mais que um choro. Era mais que qualquer coisa, na verdade. Era amor.

Homem: Amor?

Mulher: Só amor. Amor puro.

Homem: O rapaz tava morto. Não podia mais ser amor. Amor tem que ser entre du/

Mulher: Era sim. O amor por um morto é o mais verdadeiro. Porque quem ama não tem como receber nada em troca.

Homem: Eu vou tomar banho.

HOMEM VAI SAIR. MULHER O CHAMA.

Mulher: Você.

Homem: Eu o quê?

Mulher: Você nunca falou nada.

Homem: Eu falei um monte sobre a farinha branca!

Mulher: Eu tô falando dos enterros.

Homem: Ah, tá, dos enterros.

Mulher: Você nunca falou nada. (TEMPO) Qual é a hora que você mais gosta?

Homem: A hora da descida. Eu gosto mais da hora da descida.

Mulher: A hora da descida?

Homem: Quando o caixão desce pra cova.

Mulher: Por quê?

Homem: Porque é quando você me abraça.

ENTRA MÚSICA. MULHER BEIJA O HOMEM.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

OBITUÁRIO IDEAL – Cena 2

384246_2815543144777_1144789244_3289695_995145910_n  Televisão. Ouvimos (ou vemos) apresentador de um jornal.

Voz do locutor: Foram encontrados nesta Quarta-feira ossos da da perna esquerda da namorada do jogador de basquete americano Parker James. Os restos do membro estavam enterrados atrás de uma escola primária no subúrbio de Columbine. Segundo acusações, a namorada de Parker foi esquartejada e teve seus restos mortais foram comidos por cachorros.

HOMEM E MULHER ENTRANDO EM CASA. ELE VAI BUSCAR CHAMPAGNE.

Mulher: A porta da sala batendo.

Homem: Da sala?

Mulher: Dos fundos!

Homem: A porta dos fundos batendo.

Mulher: Eu não sei o que é que tá acontecendo comigo.

Homem: É mesmo?

Mulher: Muito forte.

Homem: A porta da sua casa batendo quando você tinha quinze anos ou a tampa do caixão fechando no enterro de hoje.

Mulher: É como se elas fossem a mesma coisa.

Homem: Eu não entendi.

Mulher: O barulho da porta dos fundos batendo quando eu tinha quinze anos me fez sentir a mesma coisa quando fechou forte a tampa daquele caixão hoje no enterro.

Homem: Fechou bem forte, né?

Mulher: Muito forte.

Homem: Até deu uma bambeada.

Mulher: Menino, eu achei que o defunto fosse cair.

Homem: Mas conta.

Mulher: Da porta?

Homem: De quando você tinha quinze anos.

Mulher: Tá bom.

Homem: Que gostoso.

Mulher: Era uma tia em Quiçamã.

Homem: Você tinha uma tia em Quiçamã?

Mulher: Ela morreu quando eu tinha quinze anos.

Homem: Ninguém tem parente em Quiçamã.

Mulher: Ataque cardíaco ou embolia.

Homem: Se ainda fosse Lumiar...

Mulher: Minha mãe saiu do Rio com a minha irmã.

Homem: Só você...

Mulher: Foi pro enterro da minha tia e eu fiquei.

Homem: Ficou.

Mulher: Sozinha em casa.

Homem: Só você?

Mulher: Só.

Homem: Pela primeira vez na vida.

Mulher: Como é que você sabe?

Homem: Lógica

Mulher: Minha tia morre no interior do estado e eu fico sozinha em casa pela primeira vez na vida? Isso é lógica?

Homem: Você comparou a tampa do caixão fechando no enterro de hoje com a batida da porta dos fundos da sua casa. Quando você tinha quinze anos.

Mulher: Foi.

Homem: E disse que foi um sentimento libertador.

Mulher: Foi.

Homem: Liberdade. Ficar sozinha pela primeira vez (tempo) Lógica.

Mulher: Enfim.

Homem: Irônico.

Mulher: O quê?

Homem: As duas vezes têm a ver com a morte.

Mulher: É. Muito irônico.

HOMEM ABRE A GARRAFA DE CHAMPAGNE.

Homem: E o choro?

Mulher: O que é que tem?

Homem: Foi bom?

Mulher: Eu nem chorei quando a minha tia morreu.

Homem: Eu to falando de hoje.

Mulher: Ah, tá. Foi bom. Foi muito bom.

Homem: Que bom.

Mulher: Chorar é bom, né?

Homem: Tem sido.

Mulher: E pensar que tem gente que toma remédio pra não.

Homem: Como assim?

Mulher: Antidepressivo.

Homem: Ah, claro.

Mulher: Tem gente que toma antidepressivo.

Homem: Que loucura, né?

Mulher: Pra não chorar

Homem: Um desperdício.

Mulher: Devia ser o contrário.

Homem: Como assim?

Mulher: Remédio pra chorar.

Homem: Pra chorar?

Mulher: É. Um remédio que fizesse chorar.

Homem: Tipo um... depressivo.

Mulher: Um depressivo.

Homem: Você toma, deprime um pouquinho, sofre...

Mulher: E quando passa o efeito você tá ótimo.

Homem: No estado normal.

Mulher: Sem efeito colateral.

Homem: Só você.

Mulher: Não dá pra desperdiçar mais choro.

Homem: É, não dá.

Mulher: Você não viu hoje?

Homem: Eram muitos, né?

Mulher: Muitos choros.

Homem: Muitos choros. Eu nunca imaginei que tivessem tantos tipos de choro.

Mulher: São muitos mesmo.

Homem: Daria até pra classificar.

Mulher: O choro?

Homem: De acordo com o tipo.

Mulher: Mas isso se faz.

Homem: Como assim?

Mulher: Classificar os choros de acordo com o tipo.

Homem: Sério?

Mulher: Choro grave é mais doído.

Homem: Olha!

Mulher: Todo mundo que trabalha em hospital sabe disso.

Homem: Que interessante.

Mulher: Os médicos vivem receitando analgésico de acordo com a gravidade do choro.

Homem: É mesmo?

Mulher: Quanto mais grave o choro, mais forte é o remédio.

Homem: Que interessante.

Mulher: Vivem me pedindo ajuda lá no hospital.

Homem: Por quê?

Mulher: Enfermeira geralmente é mais sensível. Os médicos são mais acostumados. Meio que banaliza, sabe?

Homem: Perderam a referência do grave.

Mulher: A gente ainda tem o ouvido bom.

Homem: Entendi.

Mulher: Ainda tem uma certa capacidade de sentir.

Homem: Você quer dizer ouvir.

Mulher: Isso.

PAUSA.

Homem: E hoje?

Mulher: O que é que tem?

Homem: Você conseguiu identificar? Se os choros eram muito doídos.

Mulher: Muito.

Homem: Algum em especial?

Mulher: O da mãe, eu acho.

Homem: Da mãe!

Mulher: Choro de mãe costuma ser gravíssimo.

Homem: O da namorada parecia tar bem grave.

Mulher: Mas choro de namorada engana.

Homem: Por quê?

Mulher: É curtinho e sobressaltado.

Homem: Não reparei.

Mulher: Não dá pra perceber se é grave. Porque é curtinho e sobressaltado.

Homem: Entendi.

Mulher: Choro de vó que bom.

Homem: Ah é, é?

Mulher: Gente velha chora longo.

Homem: Jura?

Mulher: É bem sofrido.

Homem: Por quê será?

Mulher: Que é mais sofrido?

Homem: Que gente velha chora longo?

Mulher: Acho que tem a ver com fazer tudo devagar: é velho.

Homem: De repente a proximidade da morte também.

Mulher: Como assim?

Homem: O sujeito chora pelo morto e lembra que daqui a pouco é vez dele de tar ali.

Mulher: Pode ser.

Homem: Aí chora em dobro. Por ele e pelo morto. O choro fica longo.

Mulher: Bem capaz.

Homem: Que loucura...

Mulher: O quê?

Homem: Choro grave é mais doído.

Mulher: É. Choro grave.

MULHER IMITA LEVEMENTE UM CHORO GRAVE.

Homem: E você.

Mulher: Eu?

Homem: O teu choro foi muito grave?

Mulher: Difícil medir o próprio choro.

Homem: Eu imagino.

Mulher: Mas acho que não foi muito grave.

Homem: Não foi.

Mulher: Até porque eu não conhecia a morto.

Homem: É. (pausa) Até por isso. (pausa) O cheiro melhorou?

Mulher: Cheiro?

Homem: Na semana passada você disse que o cheiro te enjoou, lembra. Eu até achei que... eu até achei que você pudesse... eu achei que a gente podia ter... que você.

Mulher: Eu me lembro.

Homem: O cheiro melhorou?

Mulher: O cheiro foi suportável porque o enterro foi muito mais emocionante.

Homem: Por que será?

Mulher: Que o enterro foi mais emocionante.

Homem: Só.

Mulher: A gente tava mais solto.

Homem: Ou vai ver foi a vítima.

Mulher: O morto.

Homem: Nesse caso, vítima.

Mulher: Era o quê mesmo, hein?

Homem: Bala perdida, eu acho.

Mulher: Sei.

Homem: Não. Assassinato. Parece que o garoto do enterro de hoje estava envolvido com o tráfico. Ele morreu com uma facada na jugular, uma injeção de ar veia e treze tiros na cabeça. A morte do outro enterro que a gente foi tinha sido acidente de carro. Tiro na cabeça é mais forte, né?

Mulher: Com certeza.

Homem: Então deve ser a causa da morte da vítima.

Mulher: É isso. Causa da morte conta.

Homem: Se conta!

Mulher: Causa da morte.

Homem: Justamente. Causa da morte.

Mulher: A causa da morte.

Homem: A da morte.

Mulher: Causa da morte

Homem: E o garoto também era novo.

Mulher: Claro, a idade.

Homem: A idade ajuda.

Mulher: Ajuda muito.

Homem: E como ajuda.

Mulher: Ajuda, ajuda.

Homem: Ô se ajuda!

Mulher: É muita ajuda.

Homem: Ajuda, ajuda.

Mulher: Ajuda.

Homem: Ajuda.

Mulher: Ajuda, ajuda.

Homem: A idade ajuda.

Mulher: Fica mais triste.

Homem: Muito mais.

Mulher: Dezenove anos.

Homem: Não, não. Dezessete.

Mulher: Ele era menor?!

Homem: Você não sabia?

Mulher: Se eu soubesse teria chorado o dobro.

Homem: No próximo eu não esqueço de te dizer a idade. É sempre bom checar antes do enterro.

Mulher: Merece um brinde.

Homem: Vamos brindar então.

Mulher: A quê?

Homem: Ao garoto.

Mulher: É muito mórbido.

Homem: Então a quê?

Mulher: À paz. Essa paz que vem depois do choro.

Homem: À paz, então. (tempo)

ELES BRINDAM. FICAM ALI UM POUQUINHO.

Mulher: Porque é que você tá fazendo isso?

Homem: O quê?

Mulher: Tudo. Por que é que você tá fazendo isso tudo?

Homem: Porque eu quero ser o melhor.

Mulher: O quê?

Homem: Por você.

Mulher: Como é que é?

Homem: Eu quero ser o melhor, por você.

Mulher: Eu não entendi.

Homem: No início a gente era, lembra? Parecia que o mundo e a gente era. Mas agora não é mais.

Mulher: Elas morrem.

Homem: Quem?

Mulher: As coisas morrem.

Homem: Eu não vou deixar. (pausa) Eu não controlo a umidade relativa do ar, a queda do copo, a minha vontade de açúcar nem o seu desejo por mim. Mas eu vou fazer tudo o que eu puder pra que a gente volte a ser. Tudo o que eu puder pra ser o melhor.

Mulher: E se não for?

Homem: Eu vou sofrer.

HOMEM TENTA BEIJAR MULHER. ELA SE DESVENCILHA. HOMEM SAI. MULHER FICA ALI.

Homem: Eu vou pegar mais champanhe.

HOMEM SAI. OUVIMOS O BARULHO DA TELEVISÃO. UM TELEVENDAS OU ALGO DO TIPO. HOMEM VOLTA. MULHER MEIO QUE NUM TRANSE.

Mulher: Sabe o que eu tava pensando?

Homem: Em como a gente se ama e devia ter um filho.

Mulher: (COMO SE FOSSE UMA VIOLÊNCIA) O quê???

Homem: Nada. No que é que você tava pensando?

Mulher: No choro grave.

Homem: O choro grave?

Mulher: Como é que deve ser o choro grave. Você acha muita loucura uma mini-entrevista.

Homem: O quê?

Mulher: Com uma das mães.

Homem: Você tá falando de chegar no meio do velório e perguntar pra uma senhora que chora o filho morto “e aí, o que é que você tá sentindo”?

Mulher: Não era dessa maneira.

Homem: Tem uma outra forma de saber.

Mulher: Como?

Homem: Chorando grave.

Mulher: Você acha que a gente consegue.

Homem: A gente consegue.

Mulher: A gente não consegue.

Homem: Eu acho que é uma questão de tempo.

Mulher: Como assim?

Homem: Quanto mais a gente for a enterro, mas a coisa vai ficando real.

Mulher: Você acha?

Homem: Vai deixando de ser teatro.

Mulher: Eu tenho dúvida.

Homem: Confia em mim. O que você sentiu hoje já não foi mais forte que no primeiro enterro?

Mulher: Foi.

Homem: Então.

Mulher: Mas teve uma hora quando o padre começou a dar sermão e eu me lembrei que tinha acabado o Ajax.

Homem: Hã?

Mulher: O produto de limpeza.

Homem: Entendi.

Mulher: Na hora do sermão do padre eu me lembrei que eu tinha que comprar Ajax.

Homem: A gente compra.

Mulher: Mas eu não queria, entende? Eu queria ter ficado dentro o tempo todo. Tava bom. A gente tava ali, abraçado, eu chorando no seu ombro. Tava tão de verdade.

Homem: Uma hora a gente vai conseguir ficar de verdade o tempo inteiro.

Mulher: Você acha?

Homem: Não vai mais ser teatro.

Mulher: Tomara. (pausa) Mas como é que a gente vai saber?

Homem: O quê?

Mulher: Quando parar de ser teatro e começar a ser real. Como é que a gente vai saber que atingiu o choro grave?

Homem: A gente pode criar um método.

Mulher: Um método.

Homem: Pra medir os nossos choros

Mulher: A gravidade do choro.

Homem: Isso.

Mulher: E como seria?

Homem: Com um gravador.

Mulher: Fala mais.

Homem: É bem simples, na verdade. Você grava a sua voz normal. Uma voz guia.

Mulher: Sei.

Homem: Depois descobre a frequência da voz. E compara com os nossos choros nos funerais.

Mulher: Os choros gravados nos funerais.

Homem: Isso. Comparando os choros com a frequência normal da nossa voz a gente tem uma escala de gravidade do pranto. É simples. Função de onda.

Mulher: Quase um problema.

Homem: Problema?

Mulher: De matemática, que você passa pros seus alunos.

Homem: Ah, é. Quase isso.

Mulher: Mas eu achei a idéia genial.

Homem: Você achou?

Mulher: Genial. Outro jovem cientista.

Homem: Hein?

Mulher: O prêmio jovem cientista.

Homem: Ah, tá. Eu não tenho mais idade pra ganhar.

ELES SORRIEM. QUASE SE APROXIMAM.

Homem: Você tá bem?

Mulher: Eu tô.

Homem: Que bom.

(PAUSA. SEDUZ)

Mulher: Eu acho que... eu tô começando.

Homem: Começando.

Mulher: A sentir vontade.

Homem: É?

Mulher: Eu to bem melhor.

Homem: Que bom.

Mulher: Muito melhor.

Homem: Bem bom.

Mulher: Meu amor.

Homem: Fala.

Mulher: Eu posso te pedir uma coisa?

Homem: O que você quiser.

Mulher: Me leva pro cemitério?

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

OBITUÁRIO IDEAL – Cena 1

382716_10150613305433066_720623065_11792758_1580580536_n O barulho da serra some e vemos o homem cortando um enorme rosbife com uma faca elétrica. O barulho de uma televisão vem de uma única caixa. Ouvimos a seguinte notícia.

Voz do locutor: O braço de um recém-nascido foi encontrado nesta Segunda-feira na lata de lixo de uma loja de departamento em Realengo, Rio de Janeiro. O membro foi achado por uma menina de sete anos que acreditava ser parte de uma boneca. Segundo a perícia, o pequenino braço esquerdo pertencia a um bebê de cerca de dois meses. A polícia ainda não tem pistas sobre o caso.

(o volume abaixa)

Essa edição fica por aqui. Voltaremos mais tarde com o jornal da noite ou a qualquer momento com novas informações.

(entra programação normal)

Homem: Você quer mais?

Mulher: Não. (pausa) Por enquanto não.

Homem: Tem certeza?

Mulher: Acho que sim.

Homem: Eu posso saber por quê?

Mulher: O quê?

Homem: Eu perguntei por que você não quer mais.

Mulher: Eu não aguento.

Homem: Como não aguenta?

Mulher: É muito forte.

Homem: Sério?

Mulher: E muito cru.

Homem: Eu não achei tão cru.

Mulher: Eu não sabia que era tão cru.

Homem: Não é tão cru.

Mulher: O cheiro também...

Homem: O que é que tem o cheiro?

Mulher: Não me fez bem.

Homem: Você achou ruim?

Mulher: Me embrulhou o estômago um pouco...

Homem: Que loucura.

Mulher: Eu tenho ficado enjoada à toa.

Homem: Enjoada?

Mulher: É, eu tenho ficado enjoada à toa.

Homem: Você... Você acha que... Você tá... Você?

Mulher: Eu?

Homem: Enjoada à toa. Eu achei que de repente você tava, de repente você tava você.

Mulher: Como?

Homem: Ué. Como assim “como”?

Mulher: Como?

ELE TENTA PEGAR NA MÃO DELA. ELA SE DESVENCILHA E DERRUBA UM TALHER NO CHÃO.

Homem: Pelo menos tava gostoso.

Mulher: Oi?

Homem: Tirando o cheiro ruim, tava gostoso.

Mulher: Eu tô em dúvida.

Homem: Por quê?

Mulher: Eu já te disse, é muito cru.

Homem: E daí?

Mulher: E daí que fica frio.

Homem: Eu não acho.

Mulher: Eu queria uma coisa mais quente.

Homem: Não entendi.

Mulher: Menos cru, mais quente e mais real.

Homem: Era muito real.

Mulher: A gente tava encenando naquele cemitério!

Homem: Eu sofri de verdade!

Mulher: Era tudo muito frio, cru e pouco real.

Homem: Eu sofri de verdade.

Mulher: Você nem conhecia o morto!

Homem: Mas na hora eu senti.

Mulher: Eu também achei que fosse, mas depois eu fiquei pensando que era teatro.

Homem: Como teatro?

Mulher: A gente não tava sofrendo de verdade. Era como se a gente estivesse num teatro.

Homem: Eu até concordo que podia ter um pouco de teatro, mas também era real.

Mulher: Como é que pode ser teatro e real ao mesmo tempo?

Homem: Assim.

Mulher: Não me fez bem.

Homem: Nós fomos a um enterro, não dá pra ser chacrinha.

Mulher: Não precisava ser tão forte.

Homem: Foi pra isso que nós fomos.

Mulher: Eu sei...

Homem: E é por isso que é real.

Mulher: Eu fico na dúvida.

Homem: Eu tenho certeza.

Mulher: Eu fico na dúvida.

Homem: Você tava gostando.

Mulher: Eu não sei...

Homem: Foi bom pra nós dois.

Mulher: Pode ser.

Homem: Mesmo frio e cru.

Mulher: Você tem razão.

Homem: Você quer mais rosbife?

Mulher: Não, obrigada. Eu tô bem.

PAUSA. ELE TENTA BEIJAR A MULHER. ELA SE DESVENCILHA.

SILÊNCIO. ELE VOLTA A COMER.

Mulher: E você?

Homem: O quê?

Mulher: Como é que foi pra você?

Homem: Eu não entendi.

Mulher: Eu queria saber o que você sentiu.

Homem: Eu me senti vivo.

Mulher: Irônico.

Homem: O quê?

Mulher: Ir a um enterro pra se sentir vivo.

Homem: Não era essa a ideia?

Mulher: Alguma coisa.

Homem: Oi?

Mulher: A ideia era sentir alguma coisa. (SENSIBILIZADA) Qualquer coisa, na verdade.

Homem: Diferente.

Mulher: Qualquer coisa diferente daqui.

Homem: Qualquer coisa diferente daqui.

Mulher: Qualquer coisa diferente daqui.

Homem: E você sentiu?

Mulher: O quê?

Homem: Qualquer coisa diferente daqui.

Mulher: É difícil dizer.

Homem: Faz um esforço.

Mulher: Eu não consigo falar.

Homem: Para e pensa.

Mulher: Eu não sei.

Homem: É só dizer sim ou não.

Mulher: Eu acho que sim.

Homem: Você tem certeza que não quer mais rosbife?

SILÊNCIO.

Mulher: Não, obrigada.

ELE VOLTA A COMER.

Mulher: Muito vermelho.

Homem: O quê?

Mulher: O rosbife. Tá muito vermelho.

Homem: Não é a ideia?

Mulher: Eu não gosto. Da próxima vez eu vou deixar tostar mais.

Homem: Você vai matar o que é rosbife.

Mulher: O quê?

Homem: O rosbife é um assado de contrafilé ou lagarto que tem como característica ser cozido por fora e levemente cru por dentro. Ele deve ser servido frio geralmente acompanhado de salada de batatas. Frio e cru ele é rosbife. Quente e assado, ele vai passar a ser outra coisa. Ele vai deixar de ser um rosbife e pra ser um... bife. Se da próxima vez você tostar mais você vai matar o que é rosbife.

Mulher: Entendi.

Homem: Você tem certeza que não quer mais rosbife?

Mulher: Eu já disse que não.

Homem: E enterro?

Mulher: O quê que tem?

Homem: Você quer mais? Você quer ir a outro enterro?

Mulher: Eu não sei...

Homem: Mas foi tão bom.

Mulher: É que eu não sei se o que eu senti lá foi de verdade.

Homem: Por quê?

Mulher: Porque eu não conhecia o morto, porque eu não conhecia o morto e porque não doeu tanto.

Homem: Você sentiu.

Mulher: Eu fiquei confusa.

Homem: Eu vou te ajudar.

Mulher: O quê?

Homem: O que é que aconteceu?

Mulher: O que aconteceu?

Homem: No enterro. O que é que aconteceu no enterro?

Mulher: Eu chorei.

Homem: Você chorou.

Mulher: Eu chorei.

Homem: Que mais?

Mulher: Eu só chorei.

Homem: Só chorou?

Mulher: Eu chorei muito.

Homem: Foi muito choro.

Mulher: Muito choro.

Homem: Muito choro.

Mulher: Muito choro!

Homem: E como é que ele era?

Mulher: O choro.

Homem: Como é que era o choro?

Mulher: Era choro.

Homem: Lágrima, nariz, olho.

Mulher: Isso.

Homem: Tudo de verdade.

Mulher: O choro.

Homem: E o cheiro?

Mulher: O cheiro do choro?

Homem: Você disse que sentiu um cheiro ruim no enterro.

Mulher: Eu senti.

Homem: Verdade também.

Mulher: Era bem forte.

Homem: Como o corpo.

Mulher: O corpo do morto.

Homem: Você viu?

Mulher: Eu encostei!

Homem: Olha.

Mulher: Era bem frio.

Homem: Não era teatro.

Mulher: Frio e forte.

Homem: Olha.

Mulher: Frio, forte e cru.

Homem: Você tem certeza?

Mulher: Eu tenho.

Homem: E você tá bem?

Mulher: Eu to feliz.

Homem: Feliz?

Mulher: Tô mais que feliz.

Homem: Que bom.

Mulher: E em paz.

Homem: Que felicidade.

Mulher: Ganhei de volta.

Homem: A paz.

Mulher: Ganhei de volta a paz.

Homem: Que bom.

Mulher: Foi o melhor choro da minha vida.

Homem: Que felicidade.

Mulher: Mesmo não sendo tão real.

Homem: Que paz.

Mulher: Eu nunca me senti tão bem.

Homem: Felicidade e paz.

Mulher: E eu quero ir de novo.

Homem: Aqui seu rosbife.

B. O.

Entra LAST NIGHT I DREAMT THAT SOMEBODY LOVED ME – THE SMITHS

Ela de repente fica mais baixa e vindo de um único lugar: a televisão. A música para e ouvimos a vinheta de um jornal:

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

OBITUÁRIO IDEAL - Prólogo

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Começamos ouvindo um leve choro no B.O. O choro vai aumentando. À medida que o choro aumenta, começa a se abrir um leve foco de luz fechado no rosto de Maria. Ele começa bem baixo, a menos de 10% e vai aumentando gradativamente de acordo com o choro dela. Quando chegamos a 100%, com um choro absurdamente gritado, Maria cessa. Enxuga as lágrimas como se não tivesse acontecido nada. Olha pra baixo. Nesse momento, revela-se que Maria segurava um gravador. Ela volta um pouquinho. E dá play. Ouve o começo do choro. Dá um leve sorriso.

B.O.

Entra, pelas PA´s do teatro um som de televisão. Entra outro, que se sobrepõe a outro e a outro. Numa confusão de sons ouvimos o barulho ensurdecedor de uma serra elétrica.

Luzes.